O destino da Natureza – Uma visão ctônica, moderna, científica e ecológica.

Na época da Santa Inquisição, quando a raiva masculina foi projetada sobre as mulheres, sob a forma de receios e medos, nasceu a idéia negativa da bruxa. Tal ação foi como se também esses medos tivessem sido dirigidos sobre a Natureza de uma maneira geral.
Emprestando uma expressão de Adely Getty, seu grande mistério fincou-se sob o olho analítico do Deus racional da ciência.

 

Metáfora escultural da Deusa Mãe da antiga Religião dos povos agrários

Metáfora escultural da Deusa Mãe da antiga religião dos povos agrários

Parece que tanto o destino da Mulher, quanto o da Deusa e o da Natureza estão interligados. Getty destaca o seguinte:

1º) O Cristianismo, durante a Reforma Protestante, dissemina um marketing negativo da visão da Natureza como Mãe e o planeta um corpo vivo. A idéia da heresia trabalha contra a mulher, e a favor do extermínio de atividades consideradas pagãs, por serem destinadas à Deusa do passado. A Deusa passa a ser considerada senhora do mundo do pecado, tentador, perigoso, onde mulher, natureza e prazer eram condenados, e somente o Reino de um Pai Celestial, poderia oferecer refúgio e proteção contra este perigo;
2º) Os cientistas dos séculos XVI e XVII inspiram-se na Natureza para construir suas teorias e enfrentam grande resistência a respeito das explicações sobre os mecanismos de funcionamento do Universo. Criam então, uma linguagem nova para não ferirem o sistema de crença vigente: adotando um ponto de vista mecanicista, a Terra era como uma máquina e por trás dela estava o seu grande criador – Deus. No entanto, muitos foram considerados hereges;

3º) O Novo Mundo inspira a devastação da Natureza em seu estado selvagem, o mundo natural parecia que impor sensação de medo e insegurança, e a única forma de dominá-lo seria conquistando-o e apropriar-se dele, inclusive dos seres que viviam nele, como os índios;

4º) A ciência divide a Grande Deusa da Antigüidade em unidades fundamentais da Natureza: surgem as especializações em variados campos de estudo a fim de desvendarem seus mistérios, para depois, finalmente, descobrir-se a plenitude do complexo sistema planetário vivo na visão holística, e a antiga visão mecanicista e reducionista do mundo começa a entrar em declínio: mas não totalmente:

-     Há cientistas ainda, que continuam a tratar a matéria como algo morto e desprovido de resposta emocional, com a fé tecnológica a atropelar a sabedoria da Natureza;

-     Há outros, contudo, que consideram a gravidade dos problemas ambientais que sofremos: re-nomearam o nosso planeta de Gaia, em lembranças à antiga deusa grega da Terra. Esta visão, chamada por uns de holística, encara o planeta como um sistema que se auto-regulamenta e que possui um princípio de cooperação em si mesma: são seus microsistemas de seus campos morfogenéticos. Quando um destes microsistemas falha há uma série de conseqüências para os demais, desequilibrando todo o macrosistema. Este sistema, mecanicamente comparado a um “maquinário”, não é uma máquina. E a dor foi uma forma que a natureza encontrou como mecanismo de alerta para mostrar que o sistema está doente. Os DNAs são os diversos RGs da Natureza, e podemos ter certeza, Ela nos conhece;

5º) Tendo a Deusa, feito parte do desenvolvimento das grandes civilizações e exercia o papel supremo na qualidade de divino (para depois entrar em decadência, mas ainda está presente em nosso subconsciente como arquétipo), estamos todos ligados ao seu destino: símbolo da vida através dos ciclos, formando movimentos que na atualidade podem ser expressos pela ecologia e pelo feminismo, como se fossem reflexos de sua voz, nos quais seu poder sustentador é essencial. Mas a hierarquia de destruição e dominação fugiu de Seu Poder, e afeta o ecossistema da Terra. A teoria de Gaia começa a renascer… E a aderência à Dança Oriental na atualidade, merece ser vista como um “movimento” ligado à sua existência, simbólica ou não.

- Do meu livro Metaforma e Movimento, Vol. III. Texto originalmente redigido para praticantes de Dança do Ventre.

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