Os Mistérios do Sangue


Menarca, gravidez, lactação, menopausa…
Esta não é uma conversa feminista.
Este não é um papo “pink wicca“* pois sou apenas pagã e sigo a tradição nórdica.
Nem tudo é o que parece.
Este artigo contém idéias que podem chocar as mentes dogmáticas.
Se você é aprisionado em seus conceitos e se sentir ofendido – sorte sua, embora não seja essa minha intenção.
Aos navegantes de plantão fica o aviso: é melhor levar a sério.
Sangue feminino tem poder
;-)

Quem o utiliza em rituais que assine embaixo ^.^

Toda rosa tem seus espinhos...

Toda rosa tem seus espinhos...

O sangue menstrual, além de representar um símbolo do poder feminino pois é um fenômeno natural que somente as mulheres produzem, também representa a fluência da vida dentro da mulher. Fazendo um paralelo, pode-se dizer que a arte de menstruar, a arte de fluir com a vida, é um fator de convergência para o centro na vida de toda mulher – o útero. Emprestando uma expressão de Monika Von Koss, a mulher é capaz de “sangrar sem morrer”.

Jean Shinoda Bolen, psicanalista jungiana, em “O Caminho de Avalon – os mistérios femininos e a busca do Santo Graal”, 1996, Capítulo IV, faz uma referência ao patriarcado, à lactação e à menopausa. Ao ser considerada como assunto íntimo ou imoral (o fluxo e a cessação do sangue), a “maldição” da menstruação torna a mulher impura no Antigo Testamento, assim como a menopausa a deprecia, pois não pode mais gerar filhos para o homem.
Não é propósito aqui fomentar discussões feministas ou machistas sobre o tema. Analisemos apenas os fatos como produções históricas e culturais, as responsabilidades e os meios para revertermos tal situação dentro de nós - esse interesse fica a critério de cada um.

A história nos mostra que o patriarcado cristão é o principal responsável pelo nosso preconceito contra a própria menstruação e as transformações do corpo na gravidez. A ideologia patriarcal tende a desvalorizar tudo o que a mulher faz de forma natural e instintiva: segundo a psicanalista, por trás desta idéia está a versão masculinizada e humanizada de um deus, que cria os homens à sua imagem e semelhança. Antes desta mudança psicológica se cultuava a idéia da criação sob uma óptica feminina, uma deusa telúrica, principalmente nas sociedades agrárias, cuja época, no período pré-cristão, fenômenos como menstruação, gravidez e menopausa eram considerados naturais.

Como o mito feminino foi substituído culturalmente pelo mito masculino, raramente encaramos a gravidez como uma experiência espiritual profunda – existe algo mais próximo da espiritualidade do que esse encontro? Hoje, temos até depressão pós-parto! Qualquer forma de vazio interior após a gravidez – o que é normal, pois a mulher estava preenchida pela criança – é visto como algo extremamente negativo. Osho, o famoso mestre indiano criador da meditação ativa – uma versão da meditação oriental adaptada para os ocidentais – sugere que mudemos a posição do foco: quando a criança nascer, a mulher estará repleta de espaço dentro de si. Antes, seu espaço era como um vaso para abrigar a criança. Agora, ele poderá ser novamente desfrutado em sua plenitude, é o período de descanso.

Neuroticamente, preocupadas com a forma corporal, muitas mulheres evitam mesmo amamentar seus bebês. Em nossa cultura, é disseminada a crença e o hábito de que se a mulher não conseguir se manter fisicamente perfeita – de acordo com os padrões (pa)es-téticos do nosso tempo - é abandonada, trocada por outra ou desprezada pelo companheiro. Parece papo de mulher chifruda, mal amada, etc etc etc… O fato desta questão é: isso acontece por se valorizar em demasia as idéias do mito masculino do tempo em que nascemos e pelo qual fomos absorvidas desde o dia de nossa concepção no ventre de nossas mães. carregamos inclusive as memórias intra-uterinas de nossas ancestrais femininas e nossos ancestrais masculinos também ;-)

Na medida em que a mulher modificar seu padrão mental, e, se aceitar e se valorizar como é, o homem, conseqüentemente, modificará seu comportamento em relação à ela – porque os relacionamentos das mulheres com os homens refletem o relacionamento que têm consigo mesmase vice-versa. Portanto, gatões mal-resolvidos, prestem atenção ao padrão de comportamento que alimentam suas histórias pessoais. Será que não estamos copiando padrões negativos que absorvemos do cristianismo?

Muitos são os problemas ocultos por detrás da forma física. Desequilíbrios emocionais ou psicológicos à parte, o formato do corpo requer cuidado, interno e externo. Meninas, esse cuidado interno significa uma mudança dos padrões de pensamentos que carregamos conosco, relacionados à nossa feminilidade.

Jean Shinoda, explana magnificamente, e de uma maneira tão clara e poética, que eu não poderia deixar de mencionar aqui. Emociono-me toda vez que leio este trecho. Ela considera a vinda do sangue e sua passagem, como um processo de iniciação para a mulher. E não poderia deixar de ser. Então eu penso como é bom ter uma prática espiritual que me permite trabalhar esse lado! Por isso, resolvi transcrever para estas linhas, suas reais palavras sobre os mistérios que carregamos dentro de nós. Se soubermos como trabalhar todos estes elementos maravilhosos que a Natureza nos deu, com certeza nos sentiremos mais livres para dançar nas Rodas da Vida… Que cada uma de nós possa entender a importância dessas palavras. Que elas possam ser mais que um ideal, pois nossas palavras projetam nossa realidade.

Como seria diferente se a fertilidade da terra e das mulheres fosse celebrada como expressões da divindade e as anciãs fossem apreciadas como sábias!
Na puberdade, quando uma menina passasse pela transição física que a conduz à feminilidade e seu corpo mudasse de forma, ela saberia que estaria começando a se assemelhar à Deusa. O início das menstruações, seu primeiro sangramento, seria celebrado. O sangue seria reverenciado. Esse sangue significa que ela se tornaria fértil e a partir de então, que poderia ser como a Deusa ou a Terra, e que a vida poderia surgir dela.
Seu período cíclico de sangramento, assim como os ciclos menstruais das mulheres que vivem em repúblicas de estudantes ou comunidades religiosas femininas, ocorreria ao mesmo tempo que o das outras mulheres, e todas estariam em sincronia com uma fase lunar, o que constitui um testamento vivo da conexão entre as mulheres e a Natureza. Ela menstruaria todo mês, exceto quando ficasse grávida. Com relação a esses nove meses, poderia se dizer que ela estaria retendo em seu corpo o sangue necessário para gerar um bebê. Isso ocorreria durante seus anos de fertilidade, até a menopausa, quando então ela pararia novamente de sangrar. E talvez isso fosse considerado algo ainda mais impressionante, pois nesse caso poderia se dizer que ela estaria retendo em corpo o sangue necessário para gerar sabedoria“.

Abraços ctônicos,

VindárR

* Pink Wicca: uso o termo para me referir às pessoas que pensam que são pagãs e brincam de reconstruir os aspectos da Antiga Religião à la revistinhas de banca de jornal. Respeito a Wicca, inclusive minha irmã de pacto é uma wiccaniana e sinto muito orgulho, profundo amor e perfeita confiança.

3 Comentários

  1. Fabiana disse,

    21 21UTC Agosto 21UTC 2008 às 14:45

    Se toda vez que um homem ao olhar para uma Deusa com os olhos do amor e não com os da lascívia ou maldade se lembrasse que um dia também esteve abrigado durante nove meses naquele ventre, o mundo seria repleto de paz e sabedoria….

  2. Stephan C. Glyn disse,

    13 13UTC Outubro 13UTC 2008 às 14:25

    Se toda vez que uma mulher sangrasse como você
    veria a grandiosidade do direito de sangrar!

    Bençãos de Amaú

    ~Stephan C. Glyn

  3. 14 14UTC Maio 14UTC 2009 às 1:49

    Eu simplesmente adorei… alias salvei esse texto nos meu favoritos para reler varias vezes, bençãos da Deusa hoje e sempre!!!


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