O homem usa o espaço como elaboração especializada da cultura.
Na realidade, muitos sistemas culturais, que caracterizam as mais diferentes culturas, são enraizados na biologia e fisiologia humanas. O homem foi capaz de criar extensões de seu próprio organismo. E. Hall (1989) dá exemplos a este respeito: o computador é uma extensão de parte do cérebro, o telefone é uma extensão da voz, a roda é uma extensão das pernas e dos pés, a língua é uma extensão da experiência humana no tempo e no espaço e a escrita, é uma extensão da língua.
As extensões humanas possuem raízes biológicas, como se pode observar. O homem as especializou a fim de controlar o mundo natural em que vive, criando assim, a dimensão cultural, de modo que, pode tanto participar da formação de seu meio ambiente, quanto este, participar de sua formação. O homem criou um mundo novo a partir de suas extensões, determinando que tipo de organismo será.
Mecanismos bioquímicos do stress
Estudos comparativos de animais mostraram que as exigências de espaço do homem são influenciadas pelo seu meio ambiente. Entre os animais é possível observar, por exemplo, que, de acordo com a modificação do espaço disponível para eles, há também uma modificação na direção, na proporção e na extensão de seus comportamentos.
Citando alguns estudos de Wilhelm Schäfer, realizados em 1956, Hall constata que mesmo as sociedades animais, crescem até uma densidade, cuja criticidade, se torna uma crise de sobrevivência. O espaço pessoal é afetado, e sem sua existência, a sobrevivência é impossível – é fatal a eliminação de alguns indivíduos.
Concluiu-se que o aumento da população leva a uma aglomeração que desencadeia um stress psicológico e emocional, através da química corporal, que faz com que ocorram o aumento do índice de agressividade, que pode levar à prática de canibalismo, a suicídios em massa e até violência sexual. (Curiosamente, na sociedade humana verifica-se o aumento da agressividade e da violência e o canibalismo no mercado de trabalho).
Os suicídios em massa também são um fenômeno comum (que já ocorreu entre cavalos selvagens), mesmo que o meio ambiente ofereça alimento para todos, pois é a natureza quem determina a necessidade de espaço.
No caso de canibalismo, o hyas araneus, espécie de caranguejo, come os caranguejos mais jovens (de carapaça mole) quando o espaço pessoal é invadido – o que só ocorre quando aumenta o número de indivíduos da mesma espécie. Também se constatou, entre os ratos almiscarados, que isso acontece em razão das fêmeas e filhotes serem presas muito fáceis mediante o aumento da população, pois não há espaços suficientes para a construção dos ninhos. Muitos filhotes são devorados pelos ratos adultos. As fêmeas ficam tão atordoadas que muitas, não conseguem sequer chegar ao final da gestação, e as que conseguem parir, não cuidam direito dos filhotes.
É necessário acrescentar, no entanto, que a pressão ambiental que os predadores exercem melhora as espécies, chegando mesmo a ser terapêutica. A experiência natural demonstra, que o stress tem um papel fundamental no controle populacional, mesmo quando decorrente da aglomeração.
Citando Paul Errington, Hall revela que existe uma semelhança de comportamento entre o homem e os ratos almiscarados, mediante o aumento da população: tendência à violência, além de uma diminuição no índice de natalidade.
