Dança do Ventre e Metodologia de Ensino

Dança do Ventre e Geometria Corporal Expressiva Aplicada

Como isso funciona na prática?
Vamos dar uma olhada.

Quando eu comecei minhas pesquisas há 14 anos atrás, fui percebendo que a forma geométrica era uma linguagem universal.

COMPREENDENDO A BASE

Luciaurea

Luciaurea - efeito geométrico de duplicação

A forma geométrica não existe com perfeição na natureza, dizia um professor meu.

Se a forma é apenas uma interpretação que o cérebro faz a partir da projeção retiniana, não podemos afirmar que elas realmente existem como as percebemos no mundo externo. Interpretamos o mundo como o percebemos,  não como realmente é – as formas nada mais são que interpretações que realizamos.

Assim, quando dizemos que a forma pode interferir no comportamento humano, estamos, na verdade, dizendo que, como seres da mesma espécie, com equipamentos perceptuais semelhantes, reagimos com padrões de comportamentos parecidos, mediante àquilo que percebemos como real.

Na medida em que nossa percepção cresce, conforme nosso desenvolvimento psicofísico, nossos comportamentos vão se individualizando, pois, embora façamos parte de um mesmo mundo biológico, estamos integrados, cada um, em seu próprio mundo sensorial distinto.

Historicamente, na biologia, a microfísica comprova que a natureza é regida em proporções geométricas variadas, que, em sua maioria, podem ser explicadas pela matemática e pelo estudo da  geometria. Embora nem sempre a geometria consiga explicar tudo, ela está sempre presente em nosso mundo. Nossos cérebros possuem circuitos de reconhecimento de padrões que reconhecem uma árvore triangular e um sol circular – mesmo através de um microscópio, vemos um mundo repleto de formas.

A matemática, através da geometria, pode determinar que o modo como sentimos o mundo depende da sua estrutura. Pode determinar, por exemplo, o perfume de uma rosa: quando se aspira ao seu perfume, na realidade, está-se respondendo ao arranjo dos átomos de hidrogênio, oxigênio e carbono em moléculas, num esquema geométrico que, se não existisse, exalaria cheiro de água e fuligem. Pode também determinar, por exemplo, a configuração do rosto humano: cada átomo do corpo é substituído de 7 em 7 anos e, no entanto, a estrutura geométrica do rosto permanece a mesma, de modo que podemos reconhecer a mesma pessoa daqui a alguns anos, mesmo que não tenhamos mais convivido com ela.

Manifestando “existência” material e biológica, a forma é, naturalmente, absorvida pelos mecanismos inconscientes das formas de vida que já são capazes de interpretá-las ou, de alguma maneira, percebê-las. No reino hominal, conforme a evolução dos equipamentos sensoriais do homem, este, foi desenvolvendo uma organização sistemática de vida que, comprovadamente, refletiu tal manifestação, simbólica e arquetipicamente, desde as artes primitivas até as organizações da urbe atual.

Se, num determinado ambiente, nos sentimos excluídos, amedrontados, ou seguros e harmonizados, é porque, de maneira inconsciente, percebemos as mensagens implícitas transmitidas pelas configurações formais deste mesmo ambiente, através de nossos processos cognitivos – ou melhor, interpretamos o conjunto das interações entre massa e espaço, nos identificando ou repelindo estas interpretações, através de posturas e atitudes que redundam em diversos tipos de comportamento – podendo ser agradáveis ou hostis.

APLICANDO A BASE

Em dança ocorre o mesmo: cada forma, na dança do ventre, será interpretada diferentemente por cada praticante, mediante o significado arquetípico que a mesma assumir no interior de cada mulher.

Se, por exemplo, uma mulher tiver fortes problemas de baixa-estima, possivelmente, tenderá a assumir a postura dos ombros arcados para frente e a colecionar problemas de relacionamento de naturezas diversas. Os movimentos-forma da dança do ventre a serem trabalhados nesta região, então provavelmente, no início, serão bloqueados pelo próprio psiquismo da mulher, que, inconscientemente, numa reação de autodefesa, se manifestará sob a forma de coordenação motora travada e confusa.

Este sistema de defesa que possuímos é parte integrante do nosso subconsciente, que não possui o consciente para tecer julgamentos de valor. O nosso subconsciente é uma fita magnética que executa qualquer coisa gravada nela. Se para esta mulher do nosso exemplo, com dificuldades de relacionamento, echar-se para o mundo consistiu numa alternativa para diminuir seu sofrimento, seu sistema somatizou esta informação em seu corpo, impregnando sua postura com a mensagem de “não sou boa o suficiente”.

Para destravar seus movimentos e corrigir sua postura, será necessária a compreensão consciente do que realizar. Será necessário ver, ouvir e sentir os movimentos da dança do ventre. Ver para compreender o percurso de um tipo de oito por exemplo, ouvir uma explicação para reforçar a memória corporal e auditiva, e sentir o oito para desbloquear sua motricidade.

A forma do oito, na dança do ventre, cujo desenho representa o lirismo e a fluência da continuidade, terá a função de trabalhar a sensualidade emocional, levando a mulher a aceitar, através da representação simbólica da forma deste movimento, que precisa soltar os pensamentos negativos do peito, eliminando quaisquer mágoas que tenham se instalado energeticamente na região; criar coragem de responder por si mesma em quaisquer situações e parar de responsabilizar-se por terceiros, tirando o mundo de suas costas; e a amar-se mais, aceitando seu corpo, o que redundará na elevação de sua auto estima. Como esta aceitação acontecerá: de maneira natural – na perfeita ordem tempo e espaço, de acordo com a realidade pessoal de cada praticante de dança do ventre.

Tal é o processo resumido de como ocorrem as interações de influência da forma sobre o comportamento humano feminino na prática da dança oriental.

(O presente artigo foi retirado do meu livro METAFORMA E MOVIMENTO – Geometria Corporal Expressiva na Dança Oriental. Um compêndio articulado, em cinco belos volumes, que reúne estudos da História da Dança do Ventre, Gestalt, Semiótica, Anatomia e Cinesiologia, Geometria Filosófica, Metafísica, Bioenergia, Psicologia Analítica, Psicologia Formativa, Linguagem do Corpo, Antiginástica, Neurolinguística e Reflexões. Um livro didático dedicado a aprendizes e professoras de Dança Oriental, Dança Conceitual, Estilo Tribal. Um livro recheado de estudos científicos que aborda dança, método, terapia e sagrado feminino. Em breve disponível).

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